A última illy art collection

Anish Kapoor

Pura profundidade, como num poço sem fundo. Ou superfície ilusória, como se a cavidade não existisse. Ou ainda uma luz que reflecte o que está em redor ou talvez apenas negro puro. Desde sempre que o Homem sabe que a vista engana: o nosso aparelho visual tenta inevitavelmente usufruir do campo perceptivo, inventando relações figura/fundo tranquilizantes.
Frequentemente engana-se, por vezes não percebe. Por isso é necessário defender-se das primeiras impressões.

Anish Kapoor transformou os nossos limites sensoriais no fulcro do seu trabalho, assumindo-os não só como um dado fisiológico e psicológico, mas também como metáfora do nosso modo de sentir a existência. E não importa se o que inventa é uma escultura arquitectónica gigantesca ou um objecto pequeno.

Desta vez jogou com a chávena illy, alterando-lhe um pormenor e subvertendo o seu uso: pousando o seu pires platinado e furado ao centro da chávena, também essa platinada, tem-se a impressão de uma luz difusa e a dificuldade em avaliar as dimensões. O movimento dos reflexos não permite colher instintivamente a entidade do espaço côncavo.

Assim, uma chávena, como todas as obras de Kapoor, passa da arte à vida e sintetiza, numa forma, situações mentais dolorosas como a dúvida, a ambivalência, o erro, mas também estados felizes como o mistério, a surpresa, o desejo de compreender o que estamos a observar e de descobrir quem somos.

Angela Vettese